quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Herança maldita

Duas grandes bombas-relógios (e pode haver muitas outras) foram deixadas pelo governo Hélio-Vilagra nas mãos do atual prefeito Pedro Serafim. E ambas podem ter consequências desastrosas para a população de Campinas atingindo justamente aqueles que mais precisam.

Uma dessas bombas – e nem dá pra colocar em ordem cronológica porque são problemas que se arrastam há tempos sem que houvesse qualquer iniciativa em busca da solução – é o Hospital Ouro Verde. Sua construção a um custo que chegou a mais de R$ 70 milhões, já se mostrava exagerada. A região poderia estar mesmo precisando de um hospital, mas ele deveria ter sido construído dentro das possibilidades de funcionamento, mesmo porque Campinas é muito maior que o  Campo Grande e as carências no setor da saúde se espalham por toda a cidade.
Mas a megalomania e talvez a corrupção provocaram uma obra gigantesca, além até das necessidades da região. Sem contar o absurdo que foi entregar a administração a uma empresa estranha à cidade – por ordem direta do governo federal – sendo Campinas a sede de duas renomadas universidades que não só têm ótimos cursos de Medicina, como ambas administram hospitais que prestam excelentes serviços à população, que são o Celso Pierro da PUCC e o Hospital das Clínicas da Unicamp.
O resultado foi que aquela obra imensa até hoje não foi plenamente ocupada. Muito pelo contrário: apenas 50% do hospital consegue ser mantido em funcionamento, num formidável desperdício de dinheiro. Tivesse ele sido construído dentro das reais condições e necessidades do município, muito dinheiro teria sido economizado e o complexo não teria grandes alas completamente ociosas com equipamentos hospitalares se perdendo. E essa economia poderia ter sido usada no restante da rede pública de saúde que, como sabemos, vive situação de penúria em várias regiões da cidade.
Agora, sabe-se que, por conta de uma dívida de mais de R$ 10 milhões – deixada pelo governo Hélio-Vilagra, o Ouro Verde pode parar de funcionar. Essa é uma amostra cabal da herança maldita que esses políticos deixaram para Campinas, consequência da incompetência, da falta de planejamento e da corrupção que grassaram nos últimos anos em Campinas.  

A outra bomba-relógio – que também pode agravar a situação daqueles que mais precisam – se refere ao malfadado convênio da Prefeitura com o Hospital Cândido Ferreira. Usado como válvula de escape para suprir carências de contratações na Saúde, o hospital acabou comportando em sua folha de pagamento nada menos que 25% de todo o efetivo da Secretaria da Saúde, numa enorme distorção administrativa que, obviamente, os órgãos de fiscalização do Estado não poderiam aceitar. E, embora não tenham aceitado há muito tempo – o convênio começou no governo de Chico Amaral (1997-2000) – ele se arrastou pelo governo petista que veio a seguir e praticamente se perpetuou no governo Hélio-Vilagra que nada fez para consertar a situação considerada irregular pelo Tribunal de Conta do Estado.
Agora a situação chegou ao seu limite e a bomba-relógio, deixada armada pela dupla que antecedeu o atual governo, está explodindo nas mãos de Pedro Serafim: sem poder renovar o convênio que termina no mês que vem, a Prefeitura pode ficar, de repente, sem mais de 1,3 mil servidores da Saúde cujos salários são recebidos através do Hospital Cândido Ferreira. Sem tempo de realizar um concurso para preencher legalmente essas vagas – o processo é moroso e demora bem uns seis meses – não se percebe uma solução para o problema no curto prazo que ele exige. Quem vai sofrer com isso? Os que mais precisam.

Em ambos os casos o atual prefeito Pedro Serafim pode fazer pouco. Bem que tentou prorrogar o convênio por mais seis meses ou contratar todos os conveniados emergencialmente pela Prefeitura, com tempo pra realização do concurso. A coragem de tentar desmontar as bombas-relógios deixadas pelos governos anteriores pode custar caro politicamente ao atual governo. Mas não há outra solução dentro da legalidade e da responsabilidade que o serviço público impõe. O sacrifício que pode ser imposto a parte da população não pode ser creditado a esse governo. Ele é consequência direta da irresponsabilidade daqueles que governaram Campinas nos últimos 15 anos.

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